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"Disse:
'É tudo inútil, se o último porto só pode
ser a cidade infernal, que está no fundo e que nos suga num vórtice
cada vez mais estreito.'
E Polo:
'O inferno dos vivos não é algo que será; se existe,
é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos
todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não
sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pesssoas:
aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar
de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção
e aprendizagem contínuas: tentar perceber quem e o que, no meio
do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir
espaço'"
(Italo Calvino, As cidades invisíveis)
ANHANGABAÚ, O CHÁ E A METRÓPOLE
Angelo Bucci
O que está em questão hoje é a própria
permanência ou não do centro ou, talvez, ainda mais, está
em jogo a permanência da própria cidade como "instituição
histórica e como realidade social". Se havia, antes, um suposto
acordo acerca da sua sustentação ele hoje parece não
mais se sustentar.
Nos últimos 20 anos, a população de
São Paulo aumentou além do dobro ; nesse mesmo período,
o centro sofreu evasão de sua população residente
.
Abandono e vitalidade são características da área
central.
Não é apenas o abandono noturno que a degrada, a sua intensa
vitalidade durante o dia também. É como se fosse uma vitalidade
degradada. A crise que ameaça a permanência da cidade como
instituição é a mesma que ameaça a permanência
da sociedade. A impossibilidade do convívio público transforma
os espaços públicos da cidade em espaços de tensão
e conflito e são esses os espaços preponderantes no centro.
Trabalhar nessa perspectiva, como se constuma dizer, é pautar-se
pela "realidade". O problema é que nos parece que nela
a possibilidade de cidade que se anuncia é trágica, uma
tragédia já ensaiada algumas vezes, hoje real e presente.
(Basta ver o cenário de guerra civil instaurado nas favelas do
Rio de Janeiro ). Por esse caminho, onde o convívio é inviável
e a sociedade se desarticula, a existência da cidade fica ameaçada.
Então a cidade que é o lugar de encontro, de concentração
de idéias, de troca de experiências e de produção
de conhecimento dá lugar às relações opostas:
transforma-se na não-cidade, esta do isolamento dos condomínios
fechados, das praças cercadas, dos "shopping centers"
etc . Hoje a não-cidade é esta, o futuro a exagera.
Reforçar essa desagregação, tensão e conflito
e justificar-se pela imposição da "realidade"
é uma atitude possível e, sem dúvida, a predominante.
É a atitude que resulta conformada pela ordem vigente, que obedece
a um projeto estabelecido e amadurecido ao longo da história e
registrado nas regras que regem a produção do espaço
urbano.
Apesar disso tudo, e dispensando qualquer pré-condição,
surgem alguns projetos para a cidade, que trabalham numa outra direção,
são como manifestos de outras possibilidades. Alguns pequenos projetos,
insensatos e inconformados, são capazes de revelar novos arranjos
e projetar velhas estruturas degradadas para uma nova relação
de valores.
São os insensatos os que nos interessam, os que carregam no seu
inconformismo a angústia diante da perspectiva de um futuro trágico
e introduzem no jogo o inesperado: um arranjo imprevisto, um futuro possível.
Estes projetos (insensatos) e aqueles (conformados) extraem o seu saber
da mesma fonte: a mesma "realidade". O saber dos projetos é
afinal sempre a própria cidade, as suas construções
é que contêm toda a memória do conhecimento do homem
e nele por sua vez estão contidas todas as possibilidades de cidade.
É uma memória em sucessão, que extrapola as fronteiras
espaciais e também as fronteiras do tempo. As cidades se referenciam
indefinidamente tanto para o passado quanto para o futuro. É como
se pudéssemos dizer que há em Brasília milhares de
anos de história, há em Brasília Roma e Atenas, Rio
de Janeiro e Salvador. Há em São Paulo a memória
de Lisboa e há em Lisboa a origem de São Paulo. Há
cidades miseráveis que não são nada e há aquelas
grandiosas que são todas as cidades.
* * * * *
O Vale do Anhangabaú tem sido um excelente pretexto
para alguns ensaios. A oportunidade do tema multiplica o número
de projetos de intervenção na área.
O viaduto do Chá, sua obra mais emblemática, é passagem
confortável para mais de um milhão de pessoas diariamente
e , mais do que isso, é referência e identidade para a metrópole
inteira. É uma obra de evidência inacreditável, une
os dois platôs de cotas altimétricas idênticas, centro
velho e centro novo, sobre a depressão íngreme cavada pelo
córrego do Anhangabaú. Com mais de cem anos de existência
, a idéia desse projeto parece que sempre esteve ali presente,
como se sempre tivesse existido e como se o vale nunca tivesse existido
sem ele. Na década de 30, sua arquitetura precisou ser refeita.
Substituir um viaduto por outro de mesmíssima função
é um requinte sem luxo nenhum, é prova de um admirável
acordo social pois, se sua necessidade era indiscutível, por alguma
razão, a forma como havia sido feito tornou-se inadequada ou insuficiente.
Assim, refaz-se com o caráter desejado a mesma obra. Convocaram-se
os arquitetos, que se reuniram em concurso público para propor
um outro viaduto. Aquele projetado pelo arquiteto Eliziário Bahiana
foi escolhido e inaugurado quatro anos depois .
A capacidade de fazer e refazer é que precisamos
reconquistar.
Agora é similar o que ocorre com o caso da cobertura
da galeria Prestes Maia na Praça do Patriarca.
Tudo lá está: a galeria, a escadaria, a cobertura, a praça,
os edifícios, o vale e o viaduto.
O que se propõe é substituir a atual cobertura, mesquinha
e inadequada, por uma nova feita de tal forma pelo arquiteto Paulo Mendes
da Rocha que a sua simples construção estabelece com todo
o conjunto existente um arranjo novo. Tudo o que lá é precário
e desconexo ganha qualidade e sentido. O efeito dessa obra é desproporcional
ao seu porte. Essa pequena lâmina reconstrói os enormes edifícios
à sua volta porque desvenda e revela possibilidades, até
então ocultas e latentes, de apropriação daquela
praça que não se podiam ver.
O projeto do arquiteto Paulo Mendes da Rocha é prenúncio
de um centro da cidade de São Paulo no século XXI maravilhoso.
Para a cidade que queremos construir é imprescindível. O
que nos encanta sobretudo é o que ele nos demonstra pelo seu processo,
um processo quase arqueológico, mas uma arqueologia do futuro:
identifica nos fragmentos da "realidade", ou nas construções
que compõem a cidade, um caminho possível e sabe "preservá-lo,
e abrir espaço;" sem nenhum lamento e, sem exigir qualquer
pré-condição, sabe mobilizá-lo para registrar
nesta pequena intervenção o testemunho de uma outra possibilidade
de cidade.
De minha parte, eu me inclino a acreditar que esse e todos
os outros projetos que desejamos são possíveis desde já,
é simplesmente uma questão de despertarmos para a direção
que interessa. E despertar não exige tempo, nem acúmulo
de coisa nenhuma, basta o desejo. Despertar é um gesto instantâneo,
exatamente como abrir os olhos de manhã.
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