Passarela de pedestres em Olten

Oltensteg - Suíça

Projeto

2006

Obra

-

Arquitetura

Angelo Bucci

Ciro Miguel
Juliana Braga
João Paulo Meirelles Faria
Andrea Pedrazzini
Eugenio Pedrazzini
Ladislao Ricci
Raoul Favino
Nicola Baserga
Christian Mozzetti
Thea Delorenzi

ESTRUTURA
Pedrazzini Ingegneri

A decisão de se construir uma nova passarela de pedestres sobre o rio, em Olten, tem o efeito de libertar a velha passarela daquela condição de total dependência construtiva da ponte ferroviária, pois ela foi feita escorando-se nos pilares da ponte ferroviária pré-existente.

A nova passarela, mesmo construída tão próxima da sua localização anterior, ganha autonomia construtiva e, com isso, ganha nova identidade para estabelecer outras relações com o contexto urbano da cidade.

O projeto que apresentamos para a nova passarela valoriza esta autonomia construtiva pela nitidez e síntese dos elementos que a constituem: dois pilares e uma viga. Este projeto valoriza também as interlocuções urbanas que advêm desta nova identidade nas relações com o contexto em diversos níveis: a água do rio, o contato com a topografia assimétrica das margens, a ponte ferroviária e, com grande destaque entre todas, com Alte Brücke, aquela antiga passarela de madeira, coberta, que não se dissocia da história da cidade.

Os critérios técnicos que orientam a solução arquitetônica proposta são claros. Podemos descrever esta proposta através das suas peças:

OS DOIS APOIOS
A largura do rio e a existência dos dois apoios da ponte ferroviária contígua na água sugerem esta consideração: apoiar a nova passarela em apenas dois pilares construídos na água. O exame desta possibilidade, no contexto e na geometria da sua implantação, recomenda afastar estes dois novos apoios das fundações da ponte ferroviária existente a fim de evitar interferência durante a obra ou interferência de novos carregamentos na área do bulbo de influência daquelas antigas fundações. Para preservar o leito central de navegação do rio, este afastamento só é possível em direção às margens. É conveniente esta proximidade das margens, pois as obras de execução destas fundações, bases e pilares têm acessos muito confortáveis por terra. Ainda, julgamos que tal afastamento — entre os pilares da nova passarela e aqueles da ponte ferroviária — deve guardar um distância mínima de canal entre eles a fim de evitar a formação de barreira para eventuais árvores que possam ser arrastadas pela corrente do rio.

Assim, adotamos dois pilares em concreto armado, dispostos a 55 m entre si, sugerindo balanços em direção às duas margens. Os pilares têm seção elíptica com o eixo maior alinhado na direção da passarela. Eles se apoiam em bases de seção também elíptica e com eixo maior alinhado com a corrente das águas.

A VIGA
Uma única viga com 100 m de extensão e 2 m de altura em concreto protendido, biapoiada, com vão de 55 m e balanços de 22.5 m para cada uma das margens. Os balanços se projetam para além da projeção da calha do rio por sobre as margens destacando a continuidade do caminho das pessoas ou convidando à travessia.

A relação entre vão e balanço é tal que a mesa de compressão está concentrada na parte inferior da viga, daí a sua seção de “T” invertido.

A altura desta viga, acima da cota de travessia das pessoas, é conveniente em diversos aspectos:

- conveniência técnica, pois a viga tem sua forma liberada de qualquer interferência circunstancial como variação da altura do tabuleiro de passagem ou diferença de cotas de nível entre as duas margens. A forma da viga pode assim obedecer rigorosamente os critérios técnicos e, com isso, tem destacada a sua autonomia e característica que resulta da sua dimensão, da esbeltez dada pela relação altura e comprimento e da proporção equilibrada entre vão e balanços.
- conveniência construtiva, pois o nível adotado para a disposição da viga permite construir a seção central sem nenhum apoio provisório intermediário. Ou seja, porque a distância resultante entre a base da viga e o nível da água do rio é tal que permite que se armem as formas sobre treliças de aço, peças padrão e de linha, com altura suficiente para vencer o vão de 55 m. Assim o processo construtivo é bastante cômodo.
- conveniência paisagística, pois a viga nesta posição não soma obstáculos visuais na perspectiva longitudinal do rio, uma vez que sua altura coincide com as cotas já tomadas pelas vigas de aço da ponte ferroviária existente.
- conveniência de uso , pois ela faz a passarela coberta. Assim a passarela estará protegida da chuva, do sol e da neve, oferecendo maior conforto para as pessoas e também maior vida útil para a construção. Além disso, esta cobertura oferece segurança, pois, dada a sua posição relativa à ponte ferroviária, ela é anteparo contra objetos eventualmente lançados para fora do leito da ferrovia.
- conveniência de significado, pois coberta a passarela, além de passagem, ganha valor de lugar.

O TABULEIRO
O tabuleiro, o piso para a passagem das pessoas, será feito com estrutura de madeira pendurada em tirantes de aço a partir da viga de concreto. Junto aos pilares, duas pequenas praças feitas em laje de concreto armado travam este estrado horizontalmente. Assim, pendurado, o tabuleiro ajusta com grande facilidade a diferença de nível entre as duas margens, o gabarito de altura livre exigido no leito do rio e também o padrão de rampas adequado ao tráfego de pessoas.

Os pisos exibem os elementos construtivos: as lajes junto aos pilares serão mantidas em concreto lixado como acabamento, os estrados de madeira serão feitos com as peças dispostas longitudinalmente, por fim, a grelha de aço corrida na seção central acentua a transparência sutil do piso de madeira. Essa faixa central em grelha terá função importante também para a iluminação, pois os projetores de luz serão dispostos sob esta faixa em grelha, a cada 5 m, de modo que iluminem a passarela indiretamente a partir do rebatimento da luz projetada na laje da cobertura.

JUSTIFICATIVA
Trazemos esta proposta porque as soluções técnicas que ela apresenta são nítidas e oportunas. Porém, o nosso maior entusiasmo em desenhá-la está no fato de que nela a técnica ganha um sabor poético: uma viga de 100 m de extensão pairada no ar com suas 550 toneladas, esta massa imensa nos abriga, orienta nosso caminho e faz a nossa travessia tão leve como se voássemos sobre as águas do Aare.