Garagem em Murten

Murten - Suíça

Projeto

2013

Obra

-

Arquitetura

Angelo Bucci

Nilton Suenaga
Tatiana Ozzetti
Victor Próspero

ESTRUTURA
Andrea Pedrazzini

O terreno destinado à construção da garagem em Murten tem uma configuração que sugere soluções para edifício principalmente no que diz respeito à sua implantação, à relação com o entorno imediato e com a muralha da cidade histórica tão visivelmente presente.

IMPLANTAÇÃO
- a rotatória na Bernstrasse, na cota 453 m, a cerca de 150 m da porta de Murten, oferece uma entrada para os automóveis ao edifício garagem suficientemente clara, convidativa e conveniente.

- a saída de veículos pela Meylandstrasse, na cota 460 m, traz vantagens consideráveis ao arranjo do estacionamento. Os sete metros em distância vertical que separa o nível de entrada do nível de saída correspondem exatamente à dois níveis e meio, ou seja, eles equivalem a um circuito contínuo ao longo do qual se desenvolvem cinco setores, de seis no total, em linha que correspondem a 257 vagas, das 300 vagas totais. Essa disposição, com a saída no extremo oposto da entrada, equilibra a condição de acesso para todas as vagas no circuito, sugere a circulação num único sentido e evita situações de ‘dead end’. Além disso, nessa situação o tráfego tanto na praça de acesso quanto de saída é extremamente aliviado.

- um único setor do estacionamento, correspondente à 43 vagas, desenvolve-se desde a cota de ingresso, nível 453 m, até 1,40 m abaixo dela, nível 451,60 m. Correspondente a 14% das vagas, é um setor preservado conveniente para usuários habituais.

- apesar da forma cônica do lote, que à primeira vista não mostra a solução, o terreno afinal oferece uma largura generosa e suficiente para a implantação de duas faixas de lajes paralelas em rampas opostas com 16.5 m de largura cada uma e um vazio de luz entre elas numa abertura que varia de 0.5 m até 7.0 m, correspondendo, portanto, a um pátio verde com 3.5 m de largura média. Esse vazio central somado às fachadas abertas faz com que todos os setores do estacionamento tenham excelentes condições de iluminação e ventilação natural.

- desse modo, a circulação dos carros faz a transposição de níveis de modo ‘natural’. Ou seja, os distintos setores de estacionamento se desenvolvem numa ‘espiral quadrada’, assim o circuito entre eles é contínuo desde a cota de acesso, 453 m, até a cota da saída, 460 m.

- o nível de saída, cota 460 m junto à Meylandstrasse, se alinha em nível com a cobertura da sua laje par, desse modo enquanto, por um lado, os automóveis têm saída em nível com a Maylandstrasse, do outro lado, o teto jardim também permite acesso de pessoas em nível com a mesma rua. Desse modo, na cobertura, o edifício garagem recompõe o verde do terreno. Em vista aérea, apenas 8,4% ou uma pequena porção de 225,81 m² do edifício, correspondente às circulações verticais e apoios, não tem cobertura verde. Visto, por exemplo, da muralha da cidade histórica, a garagem está coberta por parque.

- a opção pela estrutura em concreto armado tem justificativas importantes. É uma tecnologia muito desenvolvida e largamente utilizada na construção civil na Suíça. Permite realizar quase todo o edifício com um único material e técnica, uma simplicidade desejável e uma possibilidade destacada neste caso, e rara no contexto, pelo fato de dispensar o isolamento térmico. Além disso, o concreto armado é a solução estrutural que permite a menor altura entre pisos, um ponto crucial para conter o edifício entre as cotas de ingresso e saída. A opção nos permite também um intercolúnio generoso, 13 m no sentido longitudinal e 8.5 m no sentido transversal, reduzindo a interferência das colunas na distribuição e número de vagas.

- o edifício soma uma área total de 7.914,82 m², menor que 8,000 m² e, portanto, dispensando o uso obrigatório de ‘sprinklers’. A relação de 26.38 m² / vaga revela a eficiência do arranjo proposto [24.57 m² / vaga, se excluirmos no cálculo as áreas destinadas à saídas de emergência e apoios]; resolvendo o programa com máximo conforto [circulação com 6,50 m de largura e vagas com 2,50 x 5,00 m] e uma área total relativamente baixa.

RELAÇÃO COM A MURALHA E A CIDADE HISTÓRICA
A fachada oeste do edifício é praticamente paralela à face leste da muralha e está apenas 55 m de distância. Essa proximidade é conveniente para a função do edifício, uma vantagem; mas exige extremo cuidado com a solução arquitetônica, um risco.

Para alguém que se aproxima de Murten vindo pela Bernstrasse, o edifício se anuncia nitidamente por um momento, embora transparente e permeável. Assim que se ultrapassa a rotatória em direção à porta da cidade o edifício sai de cena e a muralha se desvela.

Para alguém que se aproxime vindo pela Prehlstrasse ou pela Meylandstrasse o edifício se apresenta como um simples plano de parque rasante ao chão na cota 760 m.

Assim o edifício tira proveito da vantagem da sua localização e não arrisca: respeita a cidade histórica e a presença da muralha. No entanto, está atento à sua própria arquitetura e desenhado com rigor técnico e estético, quer dizer, respeita também o tempo presente.

Em atenção à oportuna solicitação das bases do concurso para que se apresente um desenho ao tratamento do piso para as áreas compreendidas entre a garagem e a porta de Murten, a proposição que fazemos é clara e está baseada em duas ações principais:

- estender em direção ao lago em frente à porta, por cerca de 50 m, o ‘ring’ verde tão bem configurado no quadrante sul da muralha, mantendo nesta extensão aquele mesmo padrão de largura, cerca de 25 m, para assegurar o sentido de continuidade guardar o mesmo distanciamento da muralha histórica.

- configurar uma praça de chegada como um acolhimento também fora do muro, junto ao chafariz em frente à escola. A configuração desta praça é feita por um novo piso, um pavimento em pedra no mesmo padrão daquelas da Hauptgasse. O desenho já estava previamente sugerido pelas edificações existentes: um quadrado de 44 m de lado. O pavimento único e contínuo concilia as distintas funções e o tráfego com um balizamento feito pelo próprio chafariz e marcos em aço. As dimensões desta praça foram moldadas historicamente e são perfeitamente compatíveis para acomodar a demanda de três vagas de estacionamento para ônibus em frente à escola. No lado oposto, a praça é convenientemente invadida por três árvores do arvoredo que marca o caminho de pedestres até a cidade histórica muralha. Dali, o caminho, tanto de veículos como pedestre, é feito por duas faixas pavimentadas que atravessam os 25 m de largura do ‘ring’ verde. São duas ‘pontes’ que nos preparam para caminhar e atravessar a muralha em direção à cidade histórica de Murten.