Edifício Brisa

São Paulo - SP

Projeto

2013

Obra

Arquitetura

Angelo Bucci

Nilton Suenaga
Beatriz Marques
Tatiana Ozzetti
Victor Próspero
Felipe Barradas

Lucas Roca
Raquel Leite
Daniela Zavagli
Beatriz Brandt
Larissa Oliveira

MODELO ELETRONICO
Ricardo Canton
Frederico Meyer
Eter 3D


ÁREA DO TERRENO
1.099,08 m²

ÁREA CONSTRUÍDA
5.418,51 m²

CONTEXTO
Um prédio se constrói sobre terrenos e sobre as histórias que aquele chão carrega. Claro, cada edifício se insere num contexto específico e desenhá-lo é também conciliar a sua relação com as pré-existências: topografia, regulamentos e, principalmente, com a vida das pessoas ali e com as construções precedentes que remanescem no entorno.
Para um novo empreendimento, as forças que agem nessa transformação da cidade demandam ações que antecedem, e definem em boa medida, o desenho de arquitetura propriamente dito. É o caso, por exemplo, da unificação dos lotes. Pois as dimensões necessárias de uma gleba para a construção de um edifício de apartamentos, mesmo que com apenas oito pavimentos, não são compatíveis com o padrão original dos lotes que caracterizavam aquela região no bairro da Pompéia, com suas casas modestas feitas em lotes entre 120 e 250 metros quadrados. Assim, antes de qualquer desenho, é necessária a reestruturação fundiária que unifica lotes a fim atingir o potencial construtivo e fazer possível uma nova configuração pretendida e conforme as restrições municipais de uso e ocupação do solo.
No caso deste edifício foram unificados três lotes contíguos junto à rua Cajaíba [674, 680 e 686] e dois lotes não confrontantes com frente para a rua Cotoxó [1157 e 1167], que se juntam aos três primeiros pelos fundos. O lote resultante é, portanto, irregular. Como um ‘F’ espelhado, que tem uma porção mais regular, cerca de 20 por 40 metros, junto à Cajaíba e duas faixas anexas bastante estreitas, com aproximadamente 4 e 7 metros de largura cada uma, junto à Cotoxó.
A topografia naquele trecho do bairro é acentuada. Da frente para a rua Cajaíba em direção ao fundo do lote, o desnível soma cerca 12 metros de aclive ou 30% de declividade. Mas essa mesma topografia que, por um lado, cobra soluções adequadas para os desníveis; por outro lado oferece uma boa recompensa: vistas panorâmicas na direção norte e oeste.
O gabarito das casas, no entorno imediato junto à rua Cajaíba, ainda conserva a característica típica do bairro, com pequenos sobrados. Enquanto a rua Cotoxó já perdeu aquela unidade original.

DEFINIÇÕES URBANÍSTICAS / IMPLANTAÇÃO
O nível térreo foi definido próximo da cota máxima do terreno, com entrada em nível para os pedestres a partir do lote mais alto na rua Cotoxó. A entrada de pedestres se faz em meio a um jardim denso e é abrigada por um segundo nível de jardim, suspenso. Nenhuma função, nem mesmo portaria ou guarita, foi implantada ali a fim de garantir toda a largura do lote como uma alameda de acesso. Esse nível foi mantido como uma praça verde de uso comum aos moradores. É interrompida apenas pela chegada de elevadores e escada é uma ocupação mínima que funciona como um arremate desta praça ao sul do lote.
A implantação do terreno neste nível tem uma justificativa ambiental, pois ela reduz ao mínimo o movimento de terra, bota fora ou importe e a alteração das contenções existentes nas divisas. Reduz muito o impacto da obra para os vizinhos e, claro, para o meio ambiente.
Abaixo da praça estão dispostos os dois níveis de estacionamento, que se percebe como subsolo para o térreo de acesso dos pedestres, mas que surpreende pela iluminação e ventilação natural e vista que oferece na direção oeste, pois está ainda acima da rua Cajaíba. O acesso de automóveis também se faz pela rua Cotoxó, por um segundo terreno, abaixo do outro e com largura suficiente para duas vias de veículo, de modo que a cota de acesso é intermediária aos dois níveis de estacionamento, com rampas suaves de apenas meio nível.
Desse modo, junto à rua Cajaíba, não há entrada para o edifício. O que define o alinhamento é apenas o volume inferior do empreendimento, que acompanha em certa medida o gabarito original das casas que estavam ali. A fim de manter algo daquela escala de uso original do lote, um pequeno comércio desenha a relação com a rua naquele trecho. Desse modo, o edifício não produziu nenhum muro fechado no alinhamento com o passeio público, ao contrário, nos três momentos distintos em que chega ao alinhamento as funções são vivas e com horários de funcionamento bastante perene.

A ARQUITETURA DO EDIFÍCIO
Além da unificação dos lotes, há outras ações que antecedem o projeto propriamente dito. São também desenhos, mas feitos pela força da lei que regula a construção na cidade ou da suposta lei que orienta os agentes do mercado. Neste caso, o que se definiu eram oito pavimentos e três apartamentos por andar, num total inicialmente pretendido de vinte e quatro apartamentos. É nesse ponto, que se convocam os arquitetos. Aliás, nesse caso, vale dizer, com toda razão. Pois os arquitetos que desenham edifícios trabalham com uma razão que se apoia noutras leis. Cada agente no processo tem um papel definido, e eles são muitos, uma tarefa da arquitetura é encontrar plano que concilie as lógicas diversas de cada interlocutor.
Três apartamentos por andar é um conhecido desafio. A elaboração do projeto de arquitetura lançou mão de uma solução engenhosa que reduzia as áreas comuns de acesso aos apartamentos com duas prumadas de elevadores em paradas defasadas de meio nível entre si. Dois apartamentos dividem um hall com vista panorâmica para o sul; e, num segundo hall, um terceiro apartamento, a meio nível em relação aos primeiros, tem vista panorâmica para o norte. Assim, os halls compartilhados se sucedem oito vezes, enquanto o hall a meio nível, apenas sete vezes. Nesse esquema, acabou por se consagrar em vinte e três o número total de apartamentos.
O sistema estrutural e construtivo proposto, laje plana sem vigas, era estratégico para reduzir ao máximo a distância de piso a piso e permitir a implantação do programa dentro do gabarito de altura de 25 m. Além disso, a laje plana e sem viga obriga a uma atenção especial nas soluções de estrutura e instalações e a um cuidado também na obra coisas que interessavam à arquitetura uma vez que, no nosso modo de entender, o acabamento da obra não é a última fase, mas a soma de todas desde a estrutura. É por isso que, como regra nesse caso, quase não há revestimentos e os materiais são mostrados na sua cor natural e exibem o sistema construtivo em que foram feitos.

É com essas ideias que elaboramos esse projeto de um pequeno edifício de apartamentos na Pompéia.