O desenho do diálogo, ou o projeto

O Desenho do Diálogo, ou o Projeto
Sobre o intercâmbio FAU USP / ETH Zurique a partir de uma perspectiva paulista.

Angelo Bucci

 

Em 2001, Annette Spiro publicou emPaulo Mendes Da Rocha: Bauten Und Projekte Works and Projects./em

Cinco anos depois, em 2006, o ilustre arquiteto professor da FAUUSP, receberia a distinção máxima da arquitetura mundial, o emPritzker Prize/em. Não há vínculo direto entre os dois eventos. Mas eles estão relacionados, afinal, de certo modo, os olhos do mundo se voltariam para aquilo que os olhos de Annette tinham visto antes.

O contexto cultural em que vivemos, assim como a língua que falamos, tem lacunas. Nelas nos sentimos incompletos, de modo similar àquela palavra que nos falta para expressar o que sentimos. Por isso, é possível inferir que Annette, muito antes de publicar seu livro, já havia percebido que algo daquilo que lhe era negado em seu contexto, poderia ser preenchido em alguma medida pelo que lhe oferecera a obra de Paulo Mendes da Rocha e, por extensão, a arquitetura no Brasil. Há um longo percurso e um enorme trabalho entre a sua intuição e a elaboração disso naquela bela publicação. Vale a ressalva, a lacuna a que me refiro é condição inerente a qualquer contexto, numa relação em que um se complementa com outro, mas nenhum deles se basta por si.

É essa antecedência que fez tão gradiosa a abertura da Primeira Oficina FAU ETH feita por Annette Spiro e Paulo Mendes da Rocha em 2008. A presença dela naquele edifício desenhado por Vilanova Artigas para a FAUUSP — ela fez questão de nos dizer em seu discurso, aquele edifício transformara seu modo de ver arquitetura — para convocar-nos a um intercâmbio acadêmico demonstrava que ela seguia em seu propósito: promover o diálogo.

 

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O silêncio fora imposto — então, já se passara quase quatro décadas — àquele edifício, mesmo a ele tão propício aos encontros; um contraditório isolamento reinara também naquela escola feita sem portas para que fosse aberta a todos. É visível, ou audível, que Vilanova Artigas foi capaz de imprimir tanta humanidade àquele prédio que se tem a impressão de que, enquanto se calavam as pessoas, o edifício falava. Há um paralelo inevitável. O silêncio vivido naquele prédio representa bem o que viveu a arquitetura no Brasil no mesmo período. Pois ela, a arquitetura como aquele prédio, tão afeita ao encontro e ao diálogo, após ter alcançado uma posição destacada para o diálogo no cenário mundial, fora mergulhada num isolamento por um plano que não previa a possibilidade do retorno. Assim, o seu campo de interlocução que ganhara o mundo, se viu reduzido aos limites de sua própria casa e mesmo aí dentro, mesmo tão restrito, o diálogo era tão pouco tolerado. Era muito improvável, mas hoje, mesmo sem saber exatamente como, vê-se que a arquitetura no Brasil, assim como aquele edifício, sobreviveu à violência, ao isolamento e ao silêncio. Mas se a sobrevivência era improvável para as instituições — a arquitetura, uma escola ou um edifício — ela era impossível na vida de uma pessoa. Por isso, a presença de Paulo Mendes da Rocha, ali junto com Annette Spiro em 2008, fez aquela abertura um evento monumental.

 

Annete antecipou-se aos olhos do mundo. Mas a impressão que tenho é que esses olhos genéricos não têm a mesma motivação e acuidade que os dela. Enquanto os olhos de Annette encontraram no Brasil a complementaridade da sua própria casa, quero dizer, de uma casa cheia de gente em que ela sempre viveu; o outro parece ter se surpreendido ao encontrar aqui uma preciosidade histórica inesperada, como se deparasse de repente com uma casa vazia, que julgava já não mais existir, bastante bem preservada. Os olhos de Annette vêem uma espessura nos fatos que parece escapar aos outros que tende a se fixar na superfície do que vê. Na superfície, a FAU parece ser o mesmo edifício pensado por Vilanova Artigas. Annete tende à substância. Ela sabe o que se viveu ali e, por isso, sabe como o seu significado está impregnado por essa história. Consequentemente, ela sabe que as palavras que aquelas paredes nos dizem podem ser tomadas, ao mesmo tempo, como alento por alguns ou como ultrajes por outros. Ou seja, para alguns elas generosamente oferecem o diálogo para outros, os insultos mais duros. Aos olhos gerais, esta contradição escapa e o Brasil é visto como uma unanimidade, quero dizer, como se os valores da arquitetura moderna tivessem viscejado aqui sem que o tempo se passasse e sem que os fatos nos atropelassem a todos. Como se tivéssemos vivido num contexto cultural protegido e seguro, como se não se conhecesse em casa e na própria pele o vazio do silêncio e da intolerância.

Uma característica marcante da condição moderna é o fato da precedência histórica não ser um simples legado, mas ser ela mesma uma matéria de escolha. Foi assim também nos anos 90, quando a arquitetura no Brasil começou lentamente a se restabelecer como atividade no campo da cultura. Contrariando qualquer previsão e a partir de um cenário cultural devastado, isso pôde acontecer de modo consistente.

 

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A possibilidade que se tem hoje de um campo de diálogo novamente abrangente responde aos anseios de gerações de arquitetos. Para o quadro atual da arquitetura no Brasil, tal possibilidade equivale a um duplo desafio: por a prova os preceitos de validade com que temos trabalhado e, ao mesmo tempo, verificar se tais preceitos resistem, e como, à transformações que inevitavelmente virão desta interlocução.

Fazer um projeto, é possivel dizer, é apenas uma forma muito peculiar de como os arquitetos registram, através do desenho, os diálogos sobre temas pertinentes. Se é assim, haveria possibilidade de projeto sem diálogo? Creio que a resposta a essa questão é uma dupla negativa, pois sem ele, ficam anulados o método e o propósito de qualquer projeto.

A questão é que o diálogo requer um campo de interlocução.

Nesse campo, o que um interlocutor oferece ao outro é nada menos que os seus próprios olhos. E, não há dúvida, cada olhar que se soma à abordagem tende a enriquecer a conclusão, o resultado do projeto.

Mas, evidentemente, há limites para isso.

Antes de tudo, há limites de quantidade. Pois no âmbito de um projeto, o grupo de interlocutores se restringe ao que se denomina equipe de projeto, isso é, aos agentes que participam daquele plano de atividade específico num arranjo producente e numericamente adequado. Aqui, de certo modo, o limite é desejável.

Há também limites de qualidade, que envolve pertinências, capacidade de juízo e a sofisticação dos critérios. É aqui que se determina a profundidade e o nível de elaboração do diálogo, ou seja, os níveis de entendimentos possíveis entre um dado grupo interlocutor. Aqui, os limites equivalem em boa medida às limitações, ou seja, às fronteiras do repertório simbólico dos interlocutores. Aqui, o desejável é expandir tais fronteiras.

Neste segundo grupo, os limites de qualidade, há três campos que são os mesmos campos em que se atua através de um projeto. Em dois deles — normativo [os critérios de procedimento num certo contexto] e técnico [as possibilidades de recursos, construtivos sobretudo, a serem utilizados] —é mais fácil divisar suas fronteiras, pois neles a razão se universaliza mais facilmente. É o terceiro campo, o simbólico, que aqui merece nota, pois nele a fronteira é mais difusa e, talvez justamente por isso, também mais interessante. É também nele onde corremos maiores riscos. É nele ainda onde nos traímos mais facilmente, porque é frequente que suas razões — que no caso são as razões do outro — nos escapem por completo sem que isso pareça ser um problema. É aqui que tantas vezes jogamos fora por puro descuido, ou incapacidade de ver, a preciosidade das images que nos trazem os olhos dos outros, porque as imagens que eles vêem não têem lugar em nosso repertório. Aqui, tangenciamos limites de alto risco como o desinteresse, que se disfarça de inofensivo, ou outros, mais escancaradamente agressivos, como a intolerância. E não há dúvida de que é justamente no campo simbólico, que o diálogo, principalmente o diálogo entre contextos culturais diversos, tem seu maior interesse pois é nesse campo que ele traz um ganho imenso. Aqui as lacunas de um contexto cultural podem ser parcialmente preenchidas com os recursos simbólicos forjados em outro.

É por acreditar que o intercâmbio acadêmico é uma maneira importante pela qual o diálogo se institucionaliza e perdura, por saber que através dele e da ação dos estudantes uma escola encontra uma brecha para se renovar porque por ali ela escapa das limitações de um contexto específico , mas, sobretudo, porque pelo diálogo com um contexto cultural diverso todos nós nos renovamos e expandimos aquelas fronteiras para nos fazer mais aptos ao diálogo e mais profunda a sua elaboração em projetos de arquitetura.

 

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Em 2008, naquele evento nos juntamos todos no propósito proposto por Annette: por um campo maior de diálogo.

Por três anos consecutivos repetimos o evento que juntou estudantes das duas escolas. Em 2008 e 2009, a ETH veio a São Paulo; em 2010, a FAU foi a Zurique. Nos dois últimos anos, aqui e lá, cada uma das escolas ofereceu seu próprio edifício como pretexto para o diálogo, para o projeto.

Ver uma escola e outra nos faz considerar que as lacunas que temos em cada casa podem ser, em boa medida, superadas pelo convívio. Juntas elas se aproximam de uma escola ideal. Mais do que isso, essa escola fundada pelo encontro entre Annette Spiro e Paulo Mendes da Rocha está solidamente construída num espaço entre Zurique e São Paulo. Que ela se consolide a cada ano, pois as paredes que se desenham nela são capazes de falar conosco.